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Entrevista

Ugo Nietzsche

Ugo Nietzsche

Assim que se formou, em 2004, o carioca Ugo Nitzsche abriu um escritório de arquitetura – que nunca desenvolveu nenhum projeto de arquitetura. Sua carreira sempre foi voltada para o light design, uma atividade especializada em iluminação que estava surgindo e ainda é bastante recente no ramo da arquitetura. Antes de se formar (na Universidade Santa Úrsula, no bairro carioca de Botafogo), Nitzche trabalhou com Maneco Quinderé, outro profissional renomado que trabalha exclusivamente com iluminação. Lá, teve contato com a iluminação cênica. E trabalhou também com Nils Ericson, outro pioneiro do light design no Brasil, com quem conheceu melhor a iluminação indireta. 

Com essas duas influências, formou sua própria identidade para se tornar ele próprio, à frente da NTZ Iluminação Arquitetônica, um profissional respeitado na área. Não apenas desenvolvendo projetos, mas também dando palestras e cursos pelo Brasil. Aí, ele ocupa uma lacuna: começou a repassar conhecimentos por conta de vários pedidos para que criasse ele mesmo um curso – não havia nenhum no mercado, fora as pós-graduações das faculdades. 

Desenhando com a luz

30/01/2020 às 12:23 / Fonte Divulgação / Por Renato Félix

 Ugo Niztsche divide um pouco desse conhecimento com a AE nessa entrevista.


AE – A atividade especializa de light design é relativamente nova no ramo da arquitetura.

Ugo Niztsche - Ela é nova não só no Brasil, como também no mundo.


AE - Por que surgiu a necessidade dessa especialização e como ela tem crescido nos últimos tempos?

UN - Desde os tempos antigos a iluminação é pensada na arquitetura – a iluminação natural. Embora a iluminação artificial não existisse. A arquitetura foi se desenvolvendo – a arquitetura bioclimática, , que utiliza por exemplo técnicas arquitetônicas para controlar o clima e a temperatura, melhorar a eficiência energética. A iluminação elétrica existe só há pouco mais de cem anos. Com certeza é a principal razão de sua especialização na arquitetura também ser muito nova.


AE - O fato de ser muito recente.

UN - É tudo muito recente. E as primeiras lâmpadas iluminavam em todas as direções. Então você não tinha como fazer o efeito de um entardecer, por exemplo. As lâmpadas incandescentes sempre iluminavam o ambiente de maneira totalmente uniforme — exceto quando você usava um refletor. E aí foi preciso esperar a lâmpada evoluir, surgir as primeiras lâmpadas refletoras, que faziam esses efeitos de luz vindo de uma determinada direção, e aí, sim, começou a ter mais possibilidades. E com melhores usos, começou a surgir possibilidades de valorização da arquitetura. Por isso é tão novo e por isso que cada vez se faz mais necessária a participação de um profissional que se dedique exclusivamente à iluminação para criar atmosferas – inclusive as atmosferas parecidas com a da luz natural.


AE - É novo profissionalmente, mas também é novo para os clientes.

UN - Total!


AE - Como é o diálogo com o cliente de um projeto para ressaltar a importância dessa especialidade?

UN - O cliente tem dificuldade de perceber que ele precisa de mais de um profissional, porque ele acha que o arquiteto resolve tudo, e é fácil a gente entender isso – justamente pelo que já foi falado: atividade profissional nova, pouco conhecida; muitas pessoas nem sabem que existe escritório que atua somente com projetos de iluminação. Então, a maneira mais adequada, a meu ver, de explicar para o cliente é lembrá-lo que, no início, um médico cuidava de tudo. E atualmente, se ele tem um problema na pele ele vai no dermatologista; se ele tem um problema no coração o médico comum não serve, ele tem que ir num cardiologista... E por aí vai. Ou seja: quanto mais uma área se desenvolve, e quanto maior fica a quantidade de assuntos a serem pesquisados por uma área, menor a possibilidade de um único profissional dominar tudo. Então, explicar para um cliente é isso: muito antigamente, um arquiteto fazia tudo. Hoje em dia é impossível um cara ser um bom arquiteto, ser um bom designer de interiores, saber todos os revestimentos, todos os tecidos, mais todas as técnicas de paisagismo, mais toda a iluminação... Cara, impossível.


AE - E a luz é fundamental para valorizar a arquitetura.

UN - É, o arquiteto pode fazer um bom projeto de arquitetura — se o projeto de iluminação for ruim, a arquitetura vai ficar ruim. Por outro lado, em um projeto médio, um projeto mais ou menos, se ele tiver um bom projeto de iluminação, faz toda a diferença e provavelmente, à noite, ficar um projeto incrível. E não estou dizendo isso porque eu trabalho com iluminação, não, hein? É porque, de verdade, cada vez mais pessoas têm consciência de que iluminação é mais e pode valorizar a arquitetura mesmo.


AE - O arquiteto tem essa questão: tem que lidar com o cliente e às vezes as ideias são discordantes, tem toda essa negociação. Você, com um projeto de iluminação, tem isso duplicado? Tem que lidar com o arquiteto e com o cliente? Ou é só com o arquiteto?

UN - Na maioria das vezes, eu lido mais com o cliente. É óbvio que cada caso é um caso. Tem arquiteto que quer participar de tudo – e aí ele quer que a gente não tenha contato com o cliente. Tem cliente que não quer ter contato com nada, quer ter o mínimo contato possível: quer que o arquiteto cuide de tudo e ele não tenha que resolver nada. Agora, normalmente a gente tem que explicar para o cliente, porque nem sempre a vontade do arquiteto é a vontade do cliente, né? Às vezes o arquiteto pensa muito em valorizar o seu projeto: está certo. Mas o cliente muitas vezes quer algo diferente: mais prático, mais voltado pra vida, pro uso dele no espaço. E tem que lidar com o cliente pra entender se ele gosta de receber gente em casa, se ele gosta de assistir a filmes, se ele gosta de ler... Não adianta botar luz de leitura, se o cara não lê, por exemplo, entende?


AE - Você poderia falar um pouco sobre iluminação direta e iluminação teatral?

UN - A iluminação direta é uma iluminação geral. Ela ilumina um ambiente todo e não faz destaque entre uma coisa e outra, ilumina tudo uniformemente. A luz teatral pode ser chamada luz cênica, cenográfica... e é justamente o contrário da luz geral.


AE - Você obtém aí uns efeitos dramáticos, não é?

UN - É mais dramático... O que um efeito teatral? É quando você tem muito contraste entre luz e sombra, certo? Por exemplo: como acontece um espetáculo? Você tem a ausência luminosa na maior parte do ambiente e tem uma luz concentrada somente nos atores principais. É uma das características da iluminação teatral, de espetáculo. Para ter esse efeito, você não pode ter a luz geral, direta, porque ela vai iluminar tudo. Você precisa diminuir a quantidade de luz geral pra começar a ter a ausência luminosa para – aí, sim – ter uma luz concentrada em um único ponto ou em alguns pontos. É através de contraste e diferentes proporções de luz e sombra que obteremos efeitos dramáticos.


AE - Existe uma diferença básica no light design de um projeto comercial para um residencial?

UN - Existe. O projeto comercial normalmente tem mais ousadia. Num projeto residencial, o cliente é um pouco menos ousado. Normalmente, né? Claro que tem os clientes ousados. Mas normalmente, quando é uma residência de família, a maioria é de projetos mais tradicionais, mais conservadores. E aí, num projeto comercial, você tem mais ousadia, mais efeitos, mais destaques – porque você tem que destacar produtos. Essa é a principal diferença.


AE - Como é que você vê o cenário do light design quando você começou a trabalhar com isso e como vê o cenário hoje?

UN - Pra mim é muito claro que cada vez tem mais procura. Por um motivo: cada vez mais o dono de um estabelecimento comercial percebe que ele vende mais se ele tem uma boa iluminação. Começa por aí. Além disso, o dono de uma residência cada vez mais percebe que uma boa iluminação vai dar mais possibilidade de ele curtir melhor a casa. Seja para ler, para trabalhar em casa, para namorar, pra receber amigos, pra assistir TV ou tudo mais que ele imaginar. Independente do motivo, a maioria das pessoas já percebeu que faz muita diferença – para melhor.


AE - E como era lá naquele começo?

UN - Era mais fácil porque as lâmpadas mudavam com menor velocidade. Você tinha a incandescente, que tinha as características de sempre. Tinha as fluorescentes, que tinham as mesmas características. Então as pessoas, mesmo sem aprender iluminação na faculdade, já tinham por experiência uma noção. Então era mais fácil as pessoas que não tinham experiência resolverem e ainda assim o projeto sair mais ou menos. Depois que mudou para a tecnologia LED, ficou mais complexo. E isso é uma reclamação quase unânime. Era mais fácil, mesmo sem conhecimento, ter resultado. Agora ficou mais desafiador. Pra mim, tá ótimo, né? Agora posso ajudar mais profissionais em todo o Brasil, seja fazendo o projeto de iluminação ou dando curso pra ensiná-los a pensar iluminação como eu, pra que eles possam iluminar melhor e, assim, valorizar ainda mais seus próprios projetos.