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Entrevista

Adriano Tadeu Barbosa

Adriano Tadeu Barbosa

“Essa mulata quando dança é luxo só”, já dizia o samba de Ary Barroso e Luiz Peixoto, de 1957, mostrando que, desde aquela época, luxo era um conceito que ia muito além do dinheiro. No Brasil, essa área se consolida como um mercado próprio, que pede estratégias particulares para quem trabalha com ele. E Adriano Tadeu Barbosa é um especialista nesse cenário, tanto em marketing pessoal quanto no mercado de luxo em si.

Atuando desde 2006, sua carreira envolve consultorias, aulas, supervisão de cursos e criação de conteúdos, com experiência internacional: supervisionou o curso de mercado de luxo pelo ISAE/FGV em Paris. Hoje, também gerenciona a Ponto Pessoal (http://pontopessoal.com.br), que engloba um portal, revista digital e escola de marketing pessoal, a primeira do Brasil e de Portugal. É também embaixador da marca de relógios alemã Exaixo e apresenta o programa Backstage junto à Revista Topview (https://topview.com.br), na região Sul. 

É luxo só

15/10/2018 às 18:16 / Fonte João Prospiter e Albori Ribeiro / Por Renato Félix

Nesta entrevista, Adriano Tadeu Barbosa divide com os leitores da AE um pouco do seu conhecimento e conta que agora já existe uma categoria além do luxo: o pós-luxo.


AE – Marketing pessoal e mercado de luxo são conceitos independentes, mas o primeiro é fundamental para ter sucesso no segundo?

Adriano Tadeu Barbosa – Com certeza o marketing pessoal traz estratégias e formas de se posicionar que lhe destacarão de forma sutil no mercado de luxo. Exemplos: a hora certa de falar de você, a forma de contar a sua história de modo que a pessoa realmente se interesse, os conceitos que definem sua imagem e fazem com que ela desperte o desejo e influencie a pessoa ou empresa na qual você está se relacionando, e, talvez o principal, como você se relaciona em busca de melhores resultados. Tudo isso liga um conceito ao outro. 


AE – O marketing pessoal é um conceito relativamente novo. Antes dele surgir como uma estratégia estruturada, como as pessoas trabalhavam sua imagem para divulgação de seus trabalhos?

ATB – Não vejo o marketing pessoal como um conceito novo, porque é pautado nos fundamentos do marketing e voltado às pessoas. Para se fazer marketing pessoal você tem que entender dos seus pontos fortes e conhecer o comportamento do mercado onde você está, despertando assim a comunicação apropriada entre um e outro. Antes, entendo que as pessoas faziam se conhecer por intuição, talvez falando muito mais delas do que deixando que as pessoas o fizessem. Hoje, estruturar assuntos para que as pessoas possam falar de você é a melhor estratégia para que o seu marketing pessoal aconteça e seja lembrado, posicione você como marca. Tudo isso é possível porque as redes sociais possibilitam essa interação e com a chegada delas é que as pessoas estão mais se antenando às possibilidades do marketing pessoal.


AE – Onde conceitos e estratégias de marketing pessoal e de branding se encontram?

ATB – Branding é você trazer pra consciência do mercado as características da sua marca/identidade. Como somos absolutamente complexos e únicos, essas características são muitas e podem e devem ser potencializadas ao longo da vida, por isso, uma gestão forte, entre todos os resultados conseguidos, é que vai garantir a lembrança dessa marca, na sua totalidade. Porém, para lembrar e se fazer conhecer são necessários movimentos que somente o marketing pode trazer, sendo aqui exatamente onde os conceitos se encontram. O branding define as características e faz a gestão dos resultados que evoluem ao longo da jornada, e o marketing traz o movimento necessário para que essas características sejam vistas e lembradas pelo mercado em que essa marca está. 



AE – O Brasil passa por uma crise econômica há alguns anos. Isso tem afetado o mercado de luxo?

ATB – Sim, mas não ao ponto de fazer o país andar para trás. Apenas não houve crescimento. Mas a crise faz com que o consumidor repense muitas oportunidades, pois ele sofistica seu consumo, pensando mais antes de agir e buscando mais experiências ao invés de somente produtos. E, nestes itens, o mercado de luxo se importa, seguindo à frente de outros segmentos e levando consigo o crescimento de 5 a 7 % previsto por estudos de mercado.


AE – O que chamamos de mercado de luxo lida exatamente com o quê, hoje, no Brasil? Ele tem mudado durante os anos?
ATB – Essa mudança é no mundo como um todo devido a consciência dos consumidores e a exigência deles em relação aos produtos e consumo. Luxo, na sua essência, traz o que é único, exclusivo, que faz pertencer a um grupo, ao mesmo tempo que é subjetivo e que pertence a poucos. O Brasil é rico em variedade natural de muitas matérias-primas de que o luxo se apropria, como pedras preciosas exportadas pelo mundo e até mesmo a seda puríssima produzida pelos bichos-da-seda no interior do Paraná e exportadas para a fabricação dos lenços extremamente elegantes da marca centenária francesa Hermès. A mudança vem com o conceito do pós-luxo.


AE – E o que é o pós-luxo?

ATB – Uma leitura atual do que se traz como luxo, mas voltando à unicidade nas experiências, emoções, conforto, segurança e memórias, que não necessariamente estão longe do local. Hoje, o conceito “glocal” é difundido como conhecer globalmente os movimentos, devido à tecnologia, mas agir localmente e de forma simples diante das características de cada região, que chega a se concentrar, em alguns casos, em empreendimentos, em bairros ou até mesmo nas cidades. Dá para se usar como exemplo alguns bairros ressurgindo em algumas cidades com novos conceitos e que fazem com que os estabelecimentos comerciais, produtos e serviços se concentrem em um conceito único a todos e que revivam nas pessoas memórias que geram conexões. Assim temos o Fresh Live Market em Curitiba, o Design District em Miami e até mesmo a cidade do Porto, em Portugal, todos com características locais com destaque entre seus frequentadores. 


AE – Nas suas palestras e cursos, o que você tem sentido como maiores dificuldades para quem almeja um bom marketing pessoal?

ATB – Duas grandes dificuldades: a gestão das redes sociais, pois como elas mudam quase que semanalmente, não conseguimos respostas técnicas de como melhor nos colocar em cada uma delas; e a real consciência de que, para ser reconhecido pelo mercado, são necessárias ações diárias, semanais, mensais e anuais. São também necessárias parcerias, construção de conteúdos e o despertar de um estilo de vida que conecte as pessoas. A consciência da segunda dificuldade responde à primeira, pois com ela as pessoas conseguem povoar seus posts e alimentar as histórias reais em suas redes sociais, engajando e interagindo uns com os outros. Da mesma forma que o mercado de luxo tem feito para se inovar e nos interagir.


AE – Como você avalia a importância hoje do marketing pessoal para a vida de um profissional?

ATB – Fundamental para o sucesso que se espera, pois não conseguimos mais separar o pessoal do profissional e estar fora do ambiente online. Não mais sozinhos fazemos as pessoas se interessarem por nós somente por alguma propaganda ou publicidade colocada nem mesmo no maior veículo de circulação ou visualização. As pessoas que consomem buscam a verdade acima de tudo e nós, enquanto marcas, precisamos contar nossas histórias reais, que giram em torno de nossas vidas, de uma forma estruturada que o marketing pessoal nos ensina, pois conecta o nosso melhor ao mercado em que fazemos parte, criando reconhecimento e lembrança, gerando novos resultados.