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Arquitetura

Capa AE 64 | Pessoal e intransferível

24/04/2019 às 11:39 / Fonte Vilmar Costa / Por Renato Félix

Capa AE 64 | Pessoal e  intransferível
Projeto da loja Marel procura estimular os sentidos além da visão e evocar a história dos proprietários


A sede da Marel Móveis Planejados, em João Pessoa, ganhou um novo visual através de um projeto da arquiteta Sandra Moura. Mas não só isso. Com liberdade de criação cedida pelos clientes, a profissional se dedicou a buscar mais do que a estética pura e criar um vínculo entre o espaço e quem vai ocupá-lo. A única coisa solicitada foi que tivesse um sub-solo para dar conforto aos clientes. “Fora isso, o cliente não tinha ideia do que iria receber como proposta” inicia Sandra.

“Muitas vezes o profissional privilegia só o sentido da visão, apenas a beleza do projeto, e esquece o principal que é o homem”, explica a arquiteta. “A arquitetura está profundamente ligada a questões da existência humana e promove abrigo para o homem trabalhar, estudar, se alimentar, se divertir, viver. E a gente está tentando fazer uma arquitetura que esteja mais voltada para o ser humano e que consiga instigar nesse ser humano os cinco sentidos. É buscar não só a estética e a funcionalidade, mas a humanidade”. 

Para isso, Sandra recorreu à história de vida dos clientes. “A arquitetura tem o poder de posicionar o seu usuário no palco da memória”, afirma. “E tem que ser não de uma maneira óbvia, mas com um ideia tangível da beleza e história. A gente precisa ser resgatado exatamente na história de cada cliente que a gente pega. Nesse projeto da Marel, tive a oportunidade de me posicionar no sentido de buscar as memórias da história da vida deles e aí fazer uma arquitetura diferenciada. Que conta a história dentro do seu espaço”.

O projeto requisitado pelos clientes era de um novo showroom da Marel, com subsolo, área de atendimento, área administrativo-financeira, diretoria, sala de reuniões, andar para uma construtora e área para vendas de complementos, como cortinas. Mas, a partir daí, a arquiteta teve liberdade. “ A proposta foi nossa, não teve interferência do cliente”, afirma. “Ele nos deixou livres para propor algo diferenciado”.

Alguns ajustes, no entanto, foram conversados. De início, a fachada teria a implantação de vegetação de cactos naturais com um sistema de irrigação sob gotejamento. “Mas o cliente questionou a manutenção e pediu para incluirmos um subsolo”, conta Sandra Moura. “A parte de interiores foi modificado várias vezes, com sistemáticas reuniões com a equipe Marel, capitaneada por Hermann Santos, até conseguirmos chegar ao final do projeto”. 

A fachada continuou com os cactos, no entanto. Para Sandra, é um dos pontos de destaque do projeto. “A estrutura artística, desenhada na fachada, fala de uma verdade, tem um DNA dos proprietários com proporção, estética, história e equilíbrio”, conta. “A fachada tem uma representatividade muito marcante. O desenho realizado, o cacto xique-xique, é uma vegetação que conserva no seu interior água para os períodos secos, utilizado para alimentar o gado. Realizamos uma correlação com os proprietários, sua história de vida em relação a sentimentos como coragem, fé, perseverança e esperança”.

Para ela, o trabalho se enquadra em um estilo contemporâneo. “Com um conceito universal, pois nós só conseguimos tornar um projeto universal — ou seja, fazer com que todos entendam os seus conceitos — quando temos referências locais inseridos dentro de uma arquitetura contemporânea”, explica.

Uma casa que existia no terreno foi demolida para dar lugar à nova edificação, que surgiu com a ideia de utilizar muito de luz natural. “Procuramos utilizar o pé direito duplo com vidros nos recuos laterais e termos uma incidência de luz ideal para área interna, economizando a iluminação artificial”, diz a arquiteta. 

A garagem é multi-uso. “Implantamos uma cozinha para ser utilizada em eventos e para a alimentação diária dos funcionários”, explica. Também é iluminada com uma parede verde, que tem sistemas de automação por gotejamento para racionalização e otimização da água.

Evitar o desperdício de água e energia é uma ideia presente de cima a baixo: da iluminação aos pisos. “Toda iluminação foi colocada em LED com um design exclusivo, desenhado com estruturas, colocadas estrategicamente nos ambientes de trabalho e showroom”, adiciona Sandra. “O piso em porcelanato com efeitos de concreto foi realizado com materiais reciclados com redução de consumo de água e energia, além da ausência de compostos orgânicos”.

Mas esse trabalho com design e a busca dos materiais certos é norteado por uma filosofia muito clara de trabalho, para atingir um objetivo muito pessoal. “A gente tem a oportunidade de poder dar alma ao espaço”, opina a arquiteta. “De fazer com que naquele lugar habite muito mais do que uma arquitetura fria e que só sirva de abrigo. Ela está ali no sentido muito mais de provocar sentimentos e sentidos para a pessoa que vai ocupar o espaço”. 

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Arquiteta
Sandra Moura

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