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Arquitetura

Capa AE 65 | O Diálogo Entre o Interior e Exterior

30/01/2020 às 16:58 / Fonte Fotos: Maíra Acayaba / Por Lidiane Gonçalves

Capa AE 65 | O Diálogo Entre o Interior e Exterior
Integração e fluidez espacial marcam projeto que reinterpreta os valores da arquitetura brasileira


Conforto, integração, sustentabilidade, minimalismo e beleza. Assim é a Casa IF, uma residência com 420 m² de área construída em um dos mais famosos cartões postais do país: a praia de Ponta Negra, em Natal RN. Projetada pelo Martins Lucena Arquitetos, escritório de arquitetura fundado em 2009 pelos arquitetos Kleimer Martins de Márcio Lucena, com sede em João Pessoa PB, recebeu Menção Honrosa no Prêmio IAB-PB 2015 na categoria Arquitetura de Edificações e foi indicado para o Prêmio Building of the Year’19 pelo Archdaily, entrando para o ranking Top 100 dos projetos mais influentes em um dos sites de arquitetura mais visitados do mundo.

A concepção do projeto, criado para acolher um jovem casal e seus dois filhos, partiu da criação de ambientes amplos que confortavelmente promovessem o diálogo entre o exterior e o interior da residência, utilizando uma linguagem arquitetônica inspirada no estilo internacional. O partido adotado foi norteado pela integração e fluidez espacial entre as áreas internas e externas, tendo em vista a conformidade às condições bioclimáticas.

A implantação em um lote de esquina, paralela ao muro de limitação do terreno, visou otimizar a captação da ventilação que nesta região provém predominantemente da Sudeste. Desta forma, as janelas das suítes foram voltadas para o leste e para o sul. Do mesmo modo, ao recuar a edificação do limite sul do terreno, implantando neste local a área de lazer com piscina e um convidativo redário, o projeto favoreceu a captação e circulação dos ventos.

A Casa IF foi concebida em três pavimentos, que seguem a lógica da contiguidade dos espaços. “O pavimento térreo compreende a cozinha, a suíte de hóspedes e a área social, que foi disposta de modo a assegurar uma conexão fluida entre os ambientes desde o hall de entrada até́ o espaço gourmet, percorrendo a sala de estar e jantar cumprindo confortavelmente a tarefa de receber amigos e familiares. Ainda no térreo, a área de lazer foi locada na parte posterior do terreno com o objetivo de resguardar a privacidade da família”, descreveu arquiteto Márcio Lucena.

A elevação do pavimento térreo em relação ao nível da calçada evidencia a edificação que é envolvida por suaves taludes, resultantes de um tratamento paisagístico no qual seus elementos contribuem na amenização climática e se integram plasticamente ao projeto arquitetônico.

“Visando o conforto do usuário, a garagem, situada no semi-subsolo, possibilita dois acessos à edificação: um através da área de serviços, também neste pavimento; e outro pela entrada principal, no pavimento térreo. O pavimento superior acomoda a área íntima da residência, composta de três suítes interligadas por um espaço livre que abriga uma biblioteca, atendendo à exigência do proprietário”, explicou arquiteto Kleimer Martins.

A iluminação da casa possui uma importância fundamental na valorização dos ambientes internos, além de assumir um caráter fundamental no conforto das atividades e uso realizados em cada espaço, de acordo com critérios técnicos específicos. A iluminação natural é percebida através das composições de luz e sombra formadas a partir das venezianas de madeira que filtram a passagem a luz no interior da residência.

É importante ressaltar a abertura que contorna parte da edificação, evidenciando o volume do pavimento superior solto do térreo, possibilitando a passagem da luz que proporciona uma iluminação indireta e natural em todo pavimento térreo da casa.

As grandes aberturas captam a ventilação abundante típica da região. O uso de esquadrias de vidro de correr e de madeiras com venezianas móveis possibilitam o controle adequado da ventilação e iluminação desejada. Além disso, os grandes beirais que abrigam terraços, protegem os espaços internos da insolação direta.

O emprego de materiais como a madeira e o ladrilho hidráulico, que compõe o grande painel da fachada oeste, bem como a utilização de pedra típicas da região no revestimento do muro da área de lazer, favorecem o diálogo entre a linguagem contemporânea e regional.

A escada de acesso ao pavimento superior alcançou também uma condição de destaque. Foi construída com o uso de perfis metálicos com piso em madeira e apoiada em apenas dois pontos, a fim de garantir uma estrutura esbelta, leve e escultórica.

O projeto contemplou o aproveitamento das águas pluviais, que são coletadas da laje de coberta para cisternas e delas para o uso na irrigação dos jardins, lavagem de carros e outras atividades que não necessitam de água potável. 

Além disso, foram instaladas na laje de coberta, placas fotovoltaícas que permitem a captação da energia solar, que é convertida em calor e transferida para água de um reservatório térmico superior, conhecido como boiler. Deste modo, foi garantido o fornecimento de água quente para os pontos de água da residência, inclusive para a piscina, que não precisará da utilização de energia elétrica para seu aquecimento. 

O projeto também foi desenvolvido com a intenção de promover o máximo de climatização natural, permitindo a ventilação cruzada dos ambientes, de modo que não haja a necessidade de utilização de climatização artificial. A própria implantação do projeto foi feita em função do pequeno declive existente, reservando o espaço do semi-subsolo na área mais baixa do terreno, implicando assim em menos escavações e conseqüentemente reduzindo os custos da obra.

A concepção estrutural assumiu papel fundamental na interação dos volumes de formas geométricas puras originando extensos balanços que proporcionaram sombreadas áreas abertas permeadas pela ventilação oferecida pelo sistema de amplas esquadrias em alumínio, vidro e madeira.

Deste modo, a estrutura adotada é constituída em grande parte por pilares, lajes e paredes em concreto armado aparente, que modelaram e revestiram os espaços. “A principal motivação da opção pelo concreto armado foi conferir maior liberdade plástica, possibilitando a leitura dos pavimentos como volumes distintos, além de ter garantido a fluidez dos espaços internos e os amplos vãos”, explicou Kleimer Martins.

A residência teve como diretrizes, desde os primeiros momentos de concepção, formular um projeto conceitual que retratasse a personalidade da família de moradores e simultaneamente adotasse preceitos não recorrentes, criativos e sustentáveis na elaboração dos espaços e no processo construtivo da edificação. 

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Escritório
Martins Lucena Arquitetos

Arquitetos
Márcio Lucena, Kleimer Martins, Tadeu de Brito, Tamáris Brasileiro, 
Deborah Barbosa, Kellington Dantas e Anna Beatriz Monteiro.