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Mãos à Obra

02/03/2020 às 08:59 / Fonte Fotos: Divulgação / Por Giovani Andrade

Mãos à Obra
Quais são os 10 maiores problemas para quem vai construir ou reformar e como evitá-los


“Construções e reformas são sinônimos de problema.” Quem nunca escutou essa frase? De fato, os testemunhos das pessoas que passaram pela experiência de construir ou reformar um imóvel apontam uma lista interminável de fatos ocorridos durante o processo que, realmente, o transformaram em um verdadeiro martírio. Na realidade, existem diversos relatos de como minimizar esses problemas, contudo, muito pouco se fala da razão pela qual esses problemas são desencadeados. Talvez estejamos combatendo o inimigo errado.

Acontece que o grande vilão dessa história, a fonte de todos os possíveis problemas de uma obra, diferentemente do que a maioria das pessoas está acostumada a ouvir e a pensar, não é um fato ocorrido e, sim, um conceito, uma ideia. Mas como uma ideia pode ser a raiz dos seus problemas? Afinal, você fez tudo certo e até contratou um arquiteto para desenvolver seu projeto! 

Essa ideia, quando se instala, é um monstro voraz que se alimenta de uma sensação maravilhosa e incontrolável de saciedade momentânea, gerada pelo sentimento de vitória que surge ao se fechar aquele “ótimo” negócio. Levar vantagem numa compra, contratar abaixo do valor de mercado são os alimentos perfeitos para que a fera cresça e, à medida que cresce, consome toda a capacidade do indivíduo infectado de avaliar racionalmente uma relação comercial.

Todos sabemos que uma negociação justa termina com benefícios para ambas as partes; o contratante consegue pagar um valor compatível com os benefícios que obterá com a aquisição do serviço, enquanto o contratado recebe o suficiente para cobrir seus custos de maneira adequada a entregar ao cliente tudo o que foi prometido na venda e ainda obter lucro. Mas, quando tomado pelo vício, o indivíduo perde esse senso crítico e passa a tomar uma série de decisões pouco racionais, baseadas apenas na busca daquela sensação de prazer capaz de saciar a ferocidade do vírus da esperteza. Uma coisa é certa: Quanto mais “esperteza”, maiores serão os problemas.

Agora, que já conhecemos o nosso real inimigo, é hora de identificar as 10 situações mais propícias a se contrair o vírus. Dessa forma, conhecendo suas próprias fraquezas, você pode se preparar para essa possibilidade e se defender mais energicamente para não ceder à tentação de abrir caminho para o desastre. 


1. Falta de transparência

Toda relação humana, seja ela pessoal ou profissional, deve ter como princípio básico a confiança. Quando escolhemos um médico, por exemplo, o fazemos porque temos total confiança de que ele tem a capacidade técnica para resolver nosso problema e de que tudo o que for proposto por ele será para garantir o bom resultado do tratamento. Esse sentimento de segurança, quase uma ligação emocional, se dá porque temos plena certeza de que essa pessoa não nos fará mal e, mesmo quando as notícias não forem boas, ele sempre será honesto e transparente. Escolhemos por confiança, por transparência e porque sabemos que estamos no mesmo time. Mas ora, se temos critérios tão seguros e bem definidos para embasar a escolha de um médico, porque não os utilizamos na escolha do arquiteto que, além de elaborar o projeto, será a peça central da equipe durante um longo e cansativo campeonato: o da construção?

Suspeite de quem só concorda com você e só fala o que você quer ouvir. Pessoas assim, geralmente, têm algo a esconder, seja a falta de capacitação técnica para discordar ou mesmo o medo de perder o contrato, caso o faça. Profissionais sérios, de qualquer área, colocam o interesse e o bem-estar do cliente em primeiro plano, mesmo que, para isso, seja necessário um confronto para dar um choque de realidade.

No universo da arquitetura e da construção civil é muito comum que os clientes cheguem aos escritórios com expectativas elevadíssimas com relação à realização dos seus desejos, mas sem a menor noção dos custos para torná-los realidade e, é nesse momento que se deve iniciar o combate contra a auto-ilusão de que é possível “dar um jeitinho”. É obrigação do arquiteto mostrar ao cliente que é impossível construir um palácio pelo preço de uma cabana e que, com isso, está, na verdade, prestando-lhe um grande serviço ao tornar suas expectativas mais coerentes com a realidade e, com isso, evitando frustrações futuras. 


2. Falta de projetos

“Pra que fazer um monte de projeto? Vou contratar apenas o da prefeitura e o mestre desenrola o resto!” Se esse pensamento já passou pela sua cabeça, sinto muito, mas é bom se preparar para o pior. Projetos, como o próprio termo diz, são projeções de uma situação futura, sua função é prever o que ainda não existe, identificar possíveis dificuldades e determinar a forma mais viável e econômica de torná-la real.

Se abrimos mão dessa vantagem, ficamos dependentes da própria sorte (ou de alguma vidente ou cartomante, sei lá!) Não conheço ninguém que tenha obtido sucesso ao abrir um negócio sem fazer uma boa pesquisa de mercado, sem identificar quem são seus concorrentes ou fazer uma projeção financeira. Isso porque tais informações são essenciais para se conhecer o cenário comercial onde se pretende atuar. Então, por que não na construção?

Se essa conduta é tão natural no ramo dos negócios, por que ainda insistimos em deixar a espinha dorsal do nosso edifício - os projetos - nas mãos dos videntes (mestres de obra)?

Tá certo, tudo bem... Mas pra que eu preciso de sondagem do terreno se é só uma casa? A resposta é simples. Para economizar! Imagine que, sem as informações referentes à composição e à resistência do terreno, o engenheiro calculista está às escuras e, para garantir a estabilidade da estrutura e diminuir o risco de algum contratempo futuro, vai optar sempre por aumentar suas margens de segurança, tornando o conjunto mais reforçado, robusto e, consequente, mais caro. Não tenha dúvida, aço e concreto são dois dos itens mais impactantes no custo final de uma obra.


3. Incompatibilidade entre os projetos

Ok. Agora que você já fez as contas e percebeu que é mais vantagem contratar todos os estudos e projetos do que arriscar a sorte, é preciso atentar para um item quase sempre esquecido: a compatibilização. 

É muito comum que os profissionais contratados para desenvolver os projetos de engenharia não se comuniquem entre si ou mesmo com o escritório responsável pela arquitetura do imóvel, assim como, frequentemente, os projetos arquitetônicos falham em prever soluções estéticas para suprir as necessidades dos complementares de engenharia. Dessa forma, cada um no seu quadrado, os profissionais se empenham e desenvolvem a melhor solução técnica “pra eles”. 

Acontece que isso nem sempre é a melhor solução para o projeto. Por isso, é tão importante a compatibilização de todos os projetos sob o olhar do arquiteto para que, mesmo com as melhores intenções, uma especialidade não acabe por prejudicar o trabalho de outra ou, o que é ainda pior, o resultado do empreendimento.

E não se engane: sem alinhar os projetos, o conserto do cano de esgoto, que está descendo no meio de uma janela, será o menor dos seus problemas.


4. Falta de planejamento financeiro

A menos que o seu cartão de crédito seja um daqueles sem limites e que o pagamento da fatura nunca seja um problema, tenho a mais absoluta certeza de que você não acorda num domingo de manhã e decide, do nada, passar vinte dias na Europa, apenas inspirado pelo belo dia de sol. Não apenas pelos custos da viagem, mas por toda a programação financeira durante o período da ausência, afinal, as contas não param de chegar.

Então, se para uma viagem de 20 dias temos a preocupação de nos preparar com antecedência para evitar qualquer imprevisto, o que dizer de uma viagem que durará meses? Saiba que uma das razões mais frequentes para o atraso ou suspensão de obras, se não a mais frequente, é a interrupção ou escassez de recursos durante o processo. Isso se dá pelo fato de ceder ao impulso de iniciar a obra sem uma estimativa mínima de quanto se precisará investir para concluí-la ou, ainda, com uma estimativa rudimentar de custo por metro quadrado fornecido pelo sindicato da construção civil ou mesmo por apostar na liberação de recursos provenientes de fontes externas.

Nesse caso, a ansiedade de terminar o empreendimento o mais rápido possível poderá ir de encontro às especificidades do terreno, às soluções técnicas para viabilizar o projeto, à burocracia dos financiamentos, até mesmo à infinidade de materiais de acabamento existentes no mercado que pode impactar diretamente no custo final da obra.

Tabelas trazem informações genéricas, portanto, visitas prévias para pesquisas informais em lojas de material de acabamento são sempre bem-vindas para se ter uma noção da realidade do mercado e, assim, poder estimar de forma mais personalizada e realista todos os itens que farão parte do seu empreendimento. Na sua situação, “se eu tivesse apenas uma hora para cortar uma árvore, eu usaria os primeiros quarenta e cinco minutos afiando meu machado.” (Abraham Lincoln).


5. Qualificação da mão de obra

É verdade. A tentação de contratar sempre o serviço mais barato é quase irresistível, a cabeça chega a ferver pensando na “economia” que se vai fazer. Acontece que só existem duas justificativas possíveis para mão de obra barata: a primeira é um profissional talentoso, iniciando na profissão e ainda sem experiência, que trabalha com preços mínimos, pois não tem estrutura física nem custos fixos e precisa de portfólio para se posicionar. 

Como ocorre com os novos restaurantes, que inauguram com preços acessíveis para conquistar os clientes. Mas em pouco tempo, tudo se ajusta à realidade e, se esse for o caso, parabéns, você deu sorte; a segunda razão que, infelizmente, é mais frequente no nosso dia a dia, é a mais pura desqualificação.

É bem comum, ainda mais em tempos de crise, pessoas assumirem qualquer serviço para não perderem oportunidades, mesmo aqueles para os quais não estão capacitadas: são ajudantes se dizendo pedreiros, pedreiros se dizendo eletricistas, decoradores fazendo reforma e assim por diante. Se a segunda situação for o seu caso, que Deus o ajude porque, certamente, o barato vai sair bem caro.

Excelência só se adquire com experiência, e experiência não sai de graça. O mais importante nesse momento de contratação é entender que buscar uma equipe de profissionais qualificados para cada função não é um custo a mais e sim um investimento em segurança, produtividade e economia a longo prazo, já que, dessa forma, diminui-se consideravelmente a possibilidade de erros e acidentes frutos da falta de capacitação para a função e de retrabalho para corrigir as falhas de execução.

Ao final, a conta é simples: (valor investido a mais em qualificação) menor que (2 meses de folha de pagamento e encargos, em função do atraso + custos com retrabalho).


6. Pressa x Atrasos

Nós crescemos ouvindo que “a fé move montanhas” mas aprendemos ao longo da vida, muitas vezes a duras penas, que essa verdade se aplica a tudo, menos à construção civil. Por mais fervorosa que seja a fé no coração de quem inicia uma obra, não dá para atropelar as etapas do processo. Exemplificando de maneira simplória: “não se pode colocar o carro na frente dos bois”.

Se retirarmos a parte intelectual e artística da concepção de um projeto, uma edificação, por mais simples que ela seja, é o resultado da combinação de processos mecânicos, físicos e químicos que até podem ser acelerados, mas não podem ser ignorados e, jamais, desafiados. O concreto, por exemplo, precisa de tempo para obter a resistência desejada, e cada uma das etapas da construção necessita de uma anterior para prepará-la: a estrutura precisa da fundação, o revestimento precisa do reboco e assim por diante, e não é preciso lembrar que cada uma dessas etapas leva tempo. 

E já que estamos falando de ditados populares, isso nos leva ao que define a construção civil: “A pressa é inimiga da perfeição”: esse é o motivo da ruína de qualquer cronograma de obra. Mas como pode ser isso? Se faço mais rápido, termino antes e economizo na folha de pagamento, não?!

Não. Quando apressamos uma etapa além do limite, principalmente as relacionadas ao acabamento, maior é a probabilidade de aparecerem falhas e imperfeições no serviço. Daí, se sua intenção é garantir o mínimo de qualidade ao imóvel, essas falhas terão que ser corrigidas, e isso custa caro e leva muito mais tempo do que o “ganho” ao apressar a etapa.


7. Relacionamento com a equipe de obra

Não é muito difícil surgirem divergências dentro de uma obra. Seja por erros de interpretação dos projetos ou por quaisquer outros possíveis ou mais improváveis motivos, essas situações são fontes geradoras de stress. O fato é que, se forem mal conduzidas, cada uma dessas situações podem gerar gastos extras ou até grandes prejuízos para o contratante. É nessa hora que se faz ainda mais necessário que o contratante aja com a postura de líder e não do chefe ditador. Ter um posicionamento de liderança e fazer com que a equipe compre a ideia da obra e se sinta corresponsável pelo resultado do empreendimento, tem um efeito direto no comprometimento dos funcionários e melhora significativamente o desempenho de todos. 

Lance desafios possíveis, estipule metas viáveis, bonifique as conquistas, agradeça o empenho de todos no cumprimento das tarefas, valorize as boas condutas e seja justo nas punições, quando forem necessárias, porque uma equipe motivada gera resultados incríveis, já uma equipe humilhada pode gerar prejuízos incalculáveis. Melhor focar nos resultados, não?!


8. Bagunça e desorganização

Muitas pessoas podem até pensar que reservar um horário para organizar o canteiro de obras é “perda de tempo” e que poderia estar produzindo para “adiantar o serviço” nesse intervalo. Acontece que, em um ambiente organizado e bem setorizado, com trajetos bem definidos e circulações livres de obstáculos, todos os deslocamentos se dão com maior fluidez e, consequentemente, os processos da obra, tais como preparação e transporte de argamassa, para citar apenas dois deles, que são repetidos incontáveis vezes ao longo da construção, são executados de maneira mais rápida e com menor emprego de energia por não ter a necessidade de transpor ou de adaptar-se a obstáculos.

Essa economia de esforço diário se reflete em menos fadiga ou lesões dos funcionários e, por sua vez, menos faltas e licenças médicas ao longo da obra. Se pensarmos na construção como uma linha de produção na qual cada etapa depende da anterior para ser executada, fica fácil entender que o resultado do trabalho está relacionado diretamente ao “gargalo” da produção.

As consequências de um único trabalhador com rendimento abaixo da média são sentidas por toda a equipe e, principalmente, pelo empregador no cálculo da folha de pagamento, caso tenha que manter uma equipe maior por mais tempo, em virtude de um serviço que não foi concluído no prazo previsto.


9. Falta de acordo sobre o programa de necessidades

Quando falamos de construção civil, principalmente após o início das obras, não há espaço para dúvidas ou indecisões. Indecisões geram atrasos, atrasos geram despesas que, por sua vez, geram discussões e mais indecisões. É de extrema importância que, antes mesmo de procurar um arquiteto, se faça um exercício de planejar o que se pretende atingir com aquele projeto, principalmente nos casos de projetos residenciais, em que esse diálogo prévio para equilibrar os desejos é fundamental; até porque, não custa lembrar que você procurou um escritório de arquitetura e não de psicologia. 

Não precisa chegar com um monte de fotos dizendo: “quero meu projeto igual a esse”, pois isso, certamente, não será acatado, pelo menos se seu arquiteto for um profissional sério, até porque copiar projetos não é lá muito louvável, não é mesmo? 

Aliás, fica a dica, caso uma situação assim aconteça na contratação do projeto, é bom começar a se preocupar.


10. Decisões unilaterais 

É muito comum em um canteiro de obras que, diante de um impasse decorrente de algum imprevisto, decisões sejam tomadas de forma unilateral pelos contratantes. Essas decisões, quase sempre orientadas pelos vários anos de experiência prática dos mestres de obra, em sua grande maioria, não passam pelo crivo do responsável pelo projeto, com a desculpa de ganhar tempo e não atrasar o andamento dos serviços.

É justamente aí que o problema aparece. Por mais experiente que seja, o mestre de obra está focado em resolver um problema de cada vez, sem se preocupar com as consequências de uma ação pontual nas demais partes (ou serviços) que englobam o projeto. É de responsabilidade do arquiteto avaliar se uma ação pontual, por mais aparentemente simples que seja, não interferirá de maneira negativa no resultado global do projeto, seja financeiramente, em função dos gastos extras com o retrabalho para desfazer a decisão, ou, ainda mais importante, no aspecto estético do projeto, fazendo com que o resultado do produto construído seja diferente do que foi contratado.

Agora que você já conhece os perigos e as formas de se proteger do vírus da esperteza, é hora de lembrar que nenhum projeto de vida deve ser deixado para trás por medo de enfrentar o desconhecido e, com planejamento, um bom time para lhe apoiar e muito entusiasmo, é possível concretizar qualquer sonho. Portanto, siga em frente, não deixe que a vida passe. Construa.



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