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Visão Lateral: O Pombal da Praça dos Três Poderes

30/01/2020 às 12:18 / Fonte HCL / Por Hélio Costa Lima

Visão Lateral: O Pombal da Praça dos Três Poderes
Os pombos, junto com os cães e os gatos, são provavelmente os mais antigos animais em convivência com os humanos nas cidades. Amados por uns, principalmente idosos e crianças, como companheiros ou vítimas de traquinagens, e visto com desconfiança por outros, pela sujeira que produzem, essas aves, de tão presentes na cena urbana, parecem fazer parte da própria alma das cidades.

De fato, o que há de comum entre lugares tão diferentes como a Praça de São Marcos, em Veneza, a de São Pedro, em Roma, a esplanada da Notre Dame de Paris, a Praça da Sé, em São Paulo, e o Ponto de Cem Réis, em João Pessoa, é a presença dos pombos. Onde houver desvãos de telhados, torres sineiras, marquises, beirais e cornijas, lá estão eles, não importa o clima nem a língua falada na cidade.

Na recém-inaugurada Brasília, foi justamente a ausência dos pombos que mobilizou Dona Eloá Quadros, em sua rápida passagem pela cidade como primeira-dama, na fugaz presidência de Jânio Quadros em 1961, a encomendar a Oscar Niemeyer um pombal para a Praça dos Três Poderes, já que, para ela, não se concebia uma praça monumental sem a presença dessas aves.

Essa iniciativa autoritária, ao que consta mal recebida inicialmente por Niemeyer por introduzir um elemento não previsto no projeto original, ensejou, entretanto, uma das mais inusitadas obras assinadas por ele, e eloquente demonstração da sua sensibilidade arquitetônica para além do óbvio.

Inusitada porque, quando se trata de obras de arquitetura, nos vêm de imediato à mente casas, edifícios de apartamentos, escolas, hospitais, enfim, construções para o abrigo de atividades e repouso humano, jamais instalações para animais, especialmente um pombal. Nossa formação é voltada primordialmente para, através da arquitetura, satisfazer os desejos e necessidades humanas: como fazer isso para pombos?

Em um gesto primário de simplicidade extraordinária, o arquiteto vai buscar no habitat natural dos pombos: as brechas e locas das formações rochosas, a inspiração para o recorte de um monólito de concreto, um objeto escultural integrado às linhas arquitetônicas modernistas de Brasília, e perfeitamente harmonizado com as proporções monumentais da Praça dos Três Poderes, gerando espaços interiores com variações de luz e sombra, e ao abrigo das chuvas e dos ventos, que, ao que tudo indica, satisfazem plenamente as exigências de habitabilidade dos seus usuários alados.

Não sei em que condições ocorreram o transporte e a adaptação das aves ao local, mas a impressão que dá é de que foram para lá espontaneamente, atraídas pela insinuação da forma arquitetônica aos seus modos atávicos de habitar.

Pombos sempre andam de peito inflado, mas os que habitam o Pombal da Praça dos Três Poderes, sadios e contentes, parecem mais orgulhosos que os demais da sua espécie por morarem numa obra de Oscar Niemeyer especialmente desenhada para eles.