Publicidade

Artigos

Visão Lateral: Pedra Flutuante

17/02/2020 às 09:15 / Fonte Fotos: HCL / Por Hélio Costa Lima

Visão Lateral: Pedra Flutuante
O Museu Brasileiro da Escultura, em São Paulo, é uma das grandes obras de Paulo Mendes da Rocha

No Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), em São Paulo, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha explora um dos tipos arquitetônicos mais antigos e simbólicos da arquitetura: o pórtico. O trilítico – duas grandes pedras na vertical que recebem uma na horizontal –, a expressão mais antiga de pórtico, ou portal, remonta ao megalítico. Ou seja, aos primórdios da arquitetura.

Este tipo arquitetônico atravessa a História vestindo os mais diferentes adereços estilísticos, até hoje. A Porta dos Leões, na Micenas de 3.500 anos atrás; o Arco de Constantino, na Roma do ano 315; e o Arco do Triunfo, na Paris do século XIX: são todos pórticos, são todos portais.

E os arquitetos modernos, se valendo das qualidades estruturais excepcionais do concreto armado, revisitam o pórtico como tipo arquitetônico e o alçam a escala de edifício monumental com vãos livres da ordem de 60 a 80 metros.

No Brasil, esta aventura tem um capítulo especial na arquitetura de museus e centros culturais, especialmente no Masp, de Lina Bo Bardi, de 1968, no MuBE, de Paulo Mendes da Rocha, de 1998, e no Cais do Sertão, do escritório Brasil Arquitetura, de 2018.

Mais do que simples construções cuja função é guardar e expor obras de arte, esses edifícios pórticos são praças cobertas que, além da função simbólica de marco e de passagem, acolhem as pessoas e estimulam o estar e eventos programados ou espontâneos sob sua sombra.

No MuBE, Paulo Mendes exercita de maneira sublime o uso intensivo do concreto aparente em grandes massas ciclópicas e a poética da estrutura revelada do edifício, características da chamada Escola Paulista, de que ele é um dos expoentes. O vão livre de 60 metros vencido por uma enorme peça de concreto armado apoiada nas extremidades por paredões também de concreto armado, numa composição de dominante horizontal reforçada pelo pé direito baixo, confere uma inesperada sensação de leveza a elementos arquitetônicos tão pesados. A grande massa monolítica de concreto que cobre o espaço parece flutuar, a despeito de suas milhares de toneladas.

E sob essa enorme pedra flutuante desenha-se a praça com seus múltiplos de planos proporcionados pela declividade natural do terreno, criando um jogo de tensões e surpresas que enriquece a experiência da visitação, tornando a arquitetura uma escultura ela mesma, uma antecipação do contato com as obras que abriga. Uma sucessão de rampas, escadas, recantos, jardins e planos d’água, proporciona uma experiência sensorial diversificada, em diálogo com as esculturas expostas a céu aberto ao longo dos caminhos.

No subsolo, o espaço confinado de exposições, com uma atmosfera de caverna reforçada pela presença dominante do concreto aparente, diferentes doses de luz e sombra, de som e de silêncio, proporcionam ao visitante sensações que potencializam a experiência de contato com as obras em exposição. Janelas, rasgos nas paredes e aberturas no teto filtram a luz natural e admitem sua entrada em intensidades especificamente trabalhadas para valorizar os ambientes internos e as obras ali expostas.